Diálogos no Fim dos Tempos

Martin observara o grupo com seus novos aliados serem alocados para fora da singularidade do fim dos tempos. Abby ainda permanecia sentada na estranha mesa, único objeto nesse local que se resumia ao vazio. Esse local, tão familiar pela vida de outrora, nessa lhe causava curiosidade e anseios, pois mesmo conhecendo a sina do final da realidade, seus sentidos e percepções ampliados de escriba ainda pareciam insuficientes para conceituar a magnitude de tal fenômeno. Evitou pensar demais sobre isso, coisa que sempre fazia para evitar percorrer o caminho que antes o levara a acreditar que o ciclo da existência poderia chegar ao seu final, ou ser corrompido, se fugisse de sua eterna ordem.

- Meera pretende realmente criar um novo artefato. Ordens suas?

- Não, embora esse desejo fosse antigo. Sua jornada no Fim do Tempo foi deveras tediosa, e uma distração motivada pelo seu mais puro dom é mais que bem vinda. Como iríamos ficar uma grande parcela de “tempo” – E Abby desenhou as aspas com os dedos – propus para ela. E por mais que você insista, eu não gosto de dar ordens para ninguém.

- Hah, perdões… força do hábito, afinal, a disciplina monástica acaba sendo introjetada em sua personalidade, hora ou outra.

- Vamos conversar. O local aqui não é de seu agrado, a calmaria das linhas temporais convergindo para um único ponto e sua desaceleração infinitesimal lhe traz de volta memórias que não são felizes.

Martin acena a cabeça, concordando com a garota. Uma inquietude lhe incomodava, e ele não conseguia traçar sua origem.

- Mas já te alerto que você não tem o que temer. Essa é uma reação natural de seus poderes e seu medalhão de escriba nesse local onde a energia temporal e suas linhas vão minguando e perdendo força. Suas antigas , obsessões e desejos foram embora com seu antigo Ser. Elas passaram a fazer parte de mim.

- Não compreendo… você nunca falou sobre isso Abby.

- Já falei milhares de vezes dentro de mim, mas a revelação realmente ocorre nesse momento… Vou lhe explicar: Quando derrotamos seu antigo “eu”, o colapso das realidades já era eminente, e Sylla, eu e os outros Escribas tivemos que adiantar os planos, ou seja reorganizar a realidade com ela ainda em percurso, e não aos poucos como eles me treinaram

- Já tinhamos esse “plano B”, só não contávamos realmente que precisaríamos usa-lo. Toda a energia bruta que o Martin anterior desviou precisava ser refinada e redimensionada de volta para os padrões da Realidade. Mas se tratava de uma energia extremamente perigosa de se manipular. TIa Al… Sylla, Maluf e Layla me disseram que nesse caso, o mais seguro era era utilizar toda essa força transformada em energia criativa… no caso, deixar a minha imaginação filtrar toda a torrente de padrões existenciais.

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Abby manipulando as energias do horizonte

- Sim… isso você já me contou, e como a existência era infinitamente vasta e começou a te tragar, os heróis sugeriram de fazer o mesmo que meu outro eu fez com Faerun, mas dentro da linha existencial e temporal, para que toda a modificação ficasse concentrada e com força suficiente para penetrar nas linhas da Realidade inconstante.

- Exato, e a tarefa foi colossal, mesmo com esse redirecionamento, Foi quando eles resolveram se dividir, com alguns deles – E os olhos de Abby param de mudar de cor por um instante, se fixando no azul original – se sacrificassem para me ajudar nessa criação. Essa memória é a mais vívida que tenho, de todas as que infinitamente passam pelo meu corpo. A primeira foi a tia… a Madame Violeta, que sem dizer nada se ajoelhou ao meu lado, numa estranha reverência e começou a aceitar a carga torrencial de energia. Em seguida seu amigo bardo, o selvagem Simba e seu amigo Ogro…

- Sylla prosseguiu para se juntar, mas eu pedi para que tanto ela quanto a Senhora Maluf esperassem mais ao meu lado… eu precisava de alguém para me guiar caso as coisas continuassem a dar errado.

- Imagino a carga que esse momento foi Abby – Martin olhava nos olhos da garota, eram raros os momentos onde podia apreciar o azul profundo original deles.

- Emocionalmente posso dizer que foi um dos momentos mais fortes que já vivi – e os olhos voltaram a brilhar em todas as cores, sinal de que acessava as infinitas memórias da existência – Mas a energia criativa deles me ajudou, e muito. A força de vontade inquebrantável da tia Violeta – mais uma vez os olhos voltaram ao azul profundo -, a liberdade de espírito de Simba, a ordem mental de Kozn, a explosão vital da tia Layla…. tudo isso ajudava a guiar minha tarefa reordenadora.

- E nesse momento que consegui compreender que devia focar em algo menor. A infinidade da realidade me assustava, mas toda essa energia criativa era mais do que suficiente para que eu conseguisse refinar uma nova criação, que por sí, refinaria todo o caos criado pela manipulação do seu Antigo Eu na criação do seu mundo dos sonhos.

- Seria como que fazer a mesma coisa, mas algo real então.

- Mais do que isso, seria readequar as leis que foram quebradas quando o mundo onírico do Antigo Martin invadiu a realidade, fazendo essas leis serem readequadas à algo que realmente fosse capaz de obedece-la. E com a energia criativa de criaturas nativas desse próprio mundo dos sonhos.

- Ou seja, você usou as próprias regras da realidade para adequar as regras que foram quebradas…

- Sim… medidas desesperadas são frutos de tempos desesperados – e ambos riram – E assim Alysian foi criada.

- Compreendo, mas ainda não entendi a parte dos desejos, obsessões e etc do meu antigo Eu.

- Esse ponto é mais sutil, e tenho duas principais teses sobre isso… A primeira delas diz respeito ao momento que decidimos usar a energia criativa para realmente criar. Meu corpo instintivamente sabia como fazer isso, faz parte de ser um Incarnum Omega, mas minha mente ainda era de uma garotinha, assustada ante a uma colossal tarefa. Meus medos, minha raiva, minhas agonias e alegrias passaram pelo filtro juntamente com a energia criativa que juntamos. A criação de Alysian, bem como minha transformação no Registro, foram contaminadas pelas minhas impressões e emoções. E minhas emoções e impressões foram alimentadas por todas as outras que meu corpo foi adquirindo conhecimento conforme as memórias e as visões do futuro passavam por mim.

- Não compreendo, Sylla e Maluf nunca pensaram nisso?

- Esqueceram de um detalhe básico, que é o segundo ponto. A Abigail adulta era a pessoa quem deveria realizar toda essa canalização. Seria ela a incarnum já desenvolvida pra tanto. Mas os acontecimentos levaram tudo a ocorrer de forma diferente, com a Abigail original sendo atacada e eu surgindo como um clone. – Abby desce da mesa que é o único móvel do Fim dos Tempos.

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Abigail, o ponto de equilíbrio original da realidade

- Então venho acompanhando uma crescente atenção dentro das informações que carrego dentro de mim com o que isso poderia ocasionar. E toda essa história atual acontecendo em Alysian, com esses heróis de agora completando uma missão pendente do passado, é parte disso.

- Entendo, seria a manifestação dessas emoções tomando forma material.

- A grosso modo sim. Um ponto de preocupação, porém, é que essas impressões, no mais profundo âmago primordial, carregam uma fagulha de todo esse conhecimento, o que pode fazer com que a longo prazo, conforme a substancialidade material for se concretizando, se torne algo de influência bastante relevante na própria realidade.

- Mas que pode ser equilibrado, creio eu.

- Sempre pode Martin, as vezes de maneira que leva bastante tempo e exige ações mais complexas. Veja a história desses Artífices, por exemplo. Descobriram e recriaram uma fonte de poder que estava esquecida a eras, e sua obsessão cada vez maior por mais poder e mais refinamento do mesmo evoluiu a tal ponto que a situação chegou até mesmo aos Escribas, com o Lich e a Elfa, e agora finaliza com esses heróis antigos renascidos. Isso é uma manifestação da propósito obsessivo que existiu tanto no seu antigo Eu querendo reordenar a realidade quanto em mim, na Sylla e nos outros querendo a todo custo impedir uma catástrofe maior. Lógico que de uma podemos tirar a sede de controle e de outra o heroísmo, mas essa vontade inflexível voltada a um único propósito sem querer encarar uma eventual falha tem um nome: Obsessão. E é isso que vemos manifestado nesse acontecimento inteiro. Em diversos outros lugares de Alysian isso ocorre, numa escala menor, mas quem sabe como o tempo poderá aumentar as proporções?

- Ainda consigo perceber outras manifestações que ganham força: O desespero, esse vem crescendo fortemente, influenciando principalmente as aberrações e criaturas antigas e esquecidas que se acham deuses ou carrascos destes. Cultos de dor e de morte… Consigo ver diversas linhas de existência onde Alysian é tomada por eles. Por consequência, toda a realidade. E isso sem falar em todos os outros problemas oriundos de uma simples impressão ou emoção.

Abby caminha e se senta ao lado de Martin, que parece estar digerindo a informação, ao mesmo tempo que acessa as linhas temporais através do controle de seu medalhão. Os olhos da garota brilham mais intensamente em todas as cores, e ela continua:

- E raciocinando, eu consigo compreender a preocupação que consumiu seu antigo Eu. A visão as vezes pode ser desesperadora, principalmente quando vista pelos olhos de todas as pessoas que existem. E isso faz com que todas essas forças dentro de mim se manifestem, querendo levar minhas decisões por determinados caminhos. Porém você já conhece esses caminhos, e as vezes fica complicado achar algum baluarte ou distanciamento para poder se centrar.

- Puxa Abby… eu

- Não precisa se preocupar, até porque não tem muito o que pode ser feito. Eu já tenho um plano em mente para que ao menos o conhecimento sobre essas influências possa ser mais preciso. E é por isso que aguardo a Rubra ser sucedida ou não em sua missão. Precisamos dos dez Escribas novamente.

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